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2013 Jul 1

Snowden: peão no tabuleiro estatal?

Snowden: peão no tabuleiro estatal?

Não será surpresa para ninguém saber que o Libertários é contra a vigilância estatal das comunicações pessoais dos cidadãos, coisa que tem sido feita o governo americano. Edward Snowden, o indivíduo que revelou essa rede gigantesca de vigilância sobre ligações telefônicas e mensagens online fez algo louvável. O governo se justifica dizendo que usava apenas "meta-data" – isto é, sabia quem tinha se comunicado com quem, mas não usava o conteúdo dessas comunicações. Que o governo tenha o poder para fazer esse tipo de rastreamento e para observar a tudo e a todos já é, de si mesmo, preocupante.


O mais recente capítulo dessa história do Snowden, contudo, é interessante por um outro motivo. Após passar por Hong Kong e outros lugares, fugido do governo americano, o destino de Snowden é incerto, e o governo do Equador delibera sobre se deve dar-lhe asilo ou não. O governo americano tentou pressionar o Equador, que já reagiu para reafirmar sua soberania, rejeitando a renovação de um acordo comercial com os EUA. Assim, Snowden, que é um símbolo da luta contra o poder absoluto do Estado, se transforma num peão de uma narrativa fictícia que exalta o poder estatal.

O governo equatoriano adota, sob a tutela do presidente Rafael Correa, uma postura supostamente anti-imperialista, lutando pelo poder das nações latinoamericanas de determinarem seu próprio caminho, longe da ingerência de potências como os EUA. Assim, Argentina, Bolívia, Venezuela e Equador formam um eixo sul-americano que se enxerga como apresentando uma alternativa contrária ao capitalismo dos EUA e do “capital internacional”, seus grandes rivais.

Ocorre que essa narrativa existe apenas no plano dos estados. O povo americano e o povo equatoriano não têm nada a ver com isso. Essa suposta rivalidade é inteiramente criada e sustentada pelas pretensões de poder dos estados nacionais, nada dizendo a respeito da vida normal da população, que, infelizmente, por vezes compra essa narrativa fictícia do estado sob o manto de amor à pátria. Mas o estado não é a nação; ele é mais uma instituição que existe nela, e embora arrogue-se a função de representá-la, ele costuma representar apenas as pretensões de poder de seus dirigentes, seja nos EUA, no Equador ou mesmo no Brasil.

Quando pleiteamos uma projeção geopolítica mais importante, cadeiras em comitês internacionais, feitos e reconhecimentos diplomáticos, não estamos agindo em prol do Brasil, mas em prol do estado brasileiro. Até que ponto os ganhos de poder e influência de nosso estado trazem benefícios ao país é altamente questionável. Apontamos, por exemplo, que países cujo estado é inexpressivo no cenário internacional podem ser nações prósperas e com alta qualidade de vida: Nova Zelândia, Suíça, Liechtenstein, Costa Rica, Cingapura. Nenhuma delas está no Conselho de Segurança da ONU, nenhuma dela exerce grande papel na geopolítica global e nas relações de poder interestatais, e isso não faz falta nenhuma a suas populações.

Agora, os habitantes do Equador estão prestes a perder oportunidades de negócio com os EUA para alimentar as pretensões de um governo que quer se impor na região. E nem precisamos mencionar a fortuna gasta e a dívida acumulada pela população norteamericana para sustentar as pretensões de poder de seu estado ao redor do globo. Na maioria das vezes, as ambições do Estado exigem sacrifícios da população e não a beneficiam de forma alguma. O apoio popular vem apenas mediante propaganda pesada para confundir patriotismo com defesa daquilo que o estado faz no plano internacional.

Já os libertários propõem um governo que abra mão por de pretensões que engrandeçam apenas ao Estado; um governo que seja servidor, e não senhor, da população. Esperamos que Snowden não deixe que seu status de refugiado o transforme em uma peça desses lamentáveis jogos de poder que em nada contribuem para a grandeza da vida humana.