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2014 Jan 13

Todo apoio ao COMUNISMO VOLUNTÁRIO do Ceará ! Ou: Uma grande aula de Economia a céu aberto

Essa semana fui surpreendido com uma notícia vinda do meu querido Siará Grande: um determinado grupo político de Fortaleza planeja uma sociedade sem dinheiro. E já conseguiram o terreno! 55 hectares de puro comunismo em plenas plagas alencarinas!

O grupo se denomina de Crítica Radical, é capitaneado por uma ex-prefeita da capital cearense, e se caracteriza por uma ideologia de esquerda baseada na obra do filósofo alemão Robert Kurz que, para ser sucinto, faz uma releitura das obras de Karl Marx adaptando-as ao cenário contemporâneo. Seu livro mais famoso talvez seja o intitulado “O Colapso da Modernização”.

Sim, meus amigos, eles falam de colapso. Colapso, destruição, esgotamento, entre outras previsões apocalípticas, todas engendradas pelo maligno Livre Mercado e pelo sistema capitalista, através da “fetichização do valor”. O dinheiro, para eles, é algo negativo.

Mas não quero aqui fazer apenas uma crítica. Quero parabenizá-los, e dar meu apoio, mesmo defendendo uma filosofia totalmente contrária a que acreditam. E convido todos os liberais, libertários e conservadores, a darem seu apoio à iniciativa.

O motivo é simples: essa é a primeira tentativa de criar uma sociedade igualitária de caráter VOLUNTÁRIO que conheço.

Igualitária, comunista, coletivista, etc, mas VOLUNTÁRIA! Vai quem quiser. Você não é obrigado a aderir ao projeto nem pelo cano do revólver revolucionário, nem pela imposição de um governo conquistado por políticas gramscianas. Você não vai para o paredón, nem sua família vai ficar como refém de nenhum governo. Você é LIVRE para entrar e sair quando quiser. Você é LIVRE!

LIVRE! Tem como não apoiar uma iniciativa dessas!?

O que essas pessoas não percebem é que o Livre Mercado não é uma entidade criada pelo Homem, muito menos uma entidade maligna controlada por uma elite mundial para se perpetuar no poder. O Mercado somos nós, as pessoas, as famílias, agindo de forma a minorar nossas necessidades. Se há elites buscando se perpetuar no poder (e há!) elas não o fazem se utilizando do Livre Mercado, pelo contrário, fazem através de mecanismos de controle criados pelo Estado — teoricamente para o “bem comum”.

Com o tempo, o Homem aprendeu a tirar melhor proveito da agricultura, da pecuária, e também da produção de bens. O artesão entendeu que conseguiria produzir mais se especializando em um só produto, e trocando seu excedente com o excedente do outro. E assim surgiu a divisão do trabalho. A especialização permitiu ganhos de produtividade tão superiores ao passado que a maioria das pessoas nem percebe o quanto se beneficiam do “sistema”. Para ser breve, basta lembrar que o pior momento do capitalismo moderno, a Revolução Industrial inglesa, permitiu que a Inglaterra multiplicasse sua população por diversas vezes — pois a partir dela, as pessoas viviam mais.

Do mesmo modo o dinheiro, a moeda, o valor, não é nenhum “fetiche”. As pessoas têm necessidades e desejos, e elencam suas prioridades através do valor. A moeda é tão somente o meio pelo qual a sociedade realiza suas trocas e administram o valor (subjetivo) que emprestam aos objetos. Quando alguém diz que “o ser humano viveu durante milênios sem dinheiro”, ele está esquecendo que o dinheiro nem sempre foi o meio de troca. O ser humano já se utilizou dos mais variados tipos de moedas ao longo dos séculos, desde alimentos como o trigo, lingotes de ouro, pedras preciosas, até mesmo o sal, de onde vem a palavra “salário”. Se o ser humano tem necessidades que vão além das físicas, e que avançam sobre os terrenos da cultura, e se algumas pessoas cultuam valores econômicos às vezes de forma exagerada, isso não é razão para criticar todo o sistema.

É possível criar uma sociedade que negue todos esses avanços? Claro que é. Essa é a tentativa do grupo de Fortaleza. Mas provavelmente será uma experiência bastante penosa. Pois mesmo que seus intentores busquem dividir suas tarefas de forma a ganhar eficiência e aumentar a produtividade, eles estarão limitados ao que é produzido nos limites de seus 55 hectares, e por seu número reduzido de pessoas. A hipótese de seu idealizador de “se houver excedente, vamos doar” é de uma ingenuidade que seria cômica, se não fosse algo que causasse um sofrimento real. A escassez é uma certeza matemática. A nova sociedade é possível, mas será uma tarefa bastante árdua.

O que farão quando alguém precisar de um antibiótico? Vão sentar num círculo de cultura e votar democraticamente a quem caberá a tarefa de produzi-lo?

O que há de melhor nessa experiência é mesmo seu caráter voluntário, algo inédito no campo das políticas coletivistas. E a comprovação do famoso brocardo:

“No capitalismo você pode ser o que quiser, até comunista. No comunismo você pode ser apenas comunista”.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2014/01/10/noticiasjornalpolitica,3188642/grupo-inicia-compra-de-area-para-criar-a-sociedade-sem-dinheiro.shtml

http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/11/27/noticiasjornalpolitica,3168931/grupo-critica-radical-planeja-sociedade-sem-dinheiro-em-fortaleza.shtml