Postagem

2014 Jan 20

O verdadeiro front de batalha

O movimento liberal brasileiro vive um período-chave na sua breve (e recente) história. Com a exceção do americano, infinitamente mais experiente e consolidado, é provável que não exista nada igual no mundo hodierno. O número de eventos, grupos, think tanks, intelectuais e simpatizantes se multiplica de maneira exponencial. A passagem do tempo, reforçada pela dedicação ímpar de algumas pessoas, foi capaz de levar em poucos anos o grupo que “cabia numa van” efetivamente a fazer parte do debate político-ideológico em vários ambientes pelo país. Sua ascensão foi tão súbita que alguns de seus detratores, portando-se como babuínos escandalosos numa jaula, que no início sequer se deram conta do que estava acontecendo, já se preocupam em espalhar inverdades e tentar corrigir no grito sua falta de argumentos.

Apesar de tudo isso, é fato que não haverá reflexo de tal fenômeno nas urnas este ano. O intuito deste texto é desmistificar a idéia de que isso necessariamente representa uma ferida inestancável. No fundo, a política é a conseqüência inevitável de atividades que são desenvolvidas anteriormente.

Tantas são as definições desse vocábulo que certamente demandariam uma extensa coleção de livros com o intuito de avaliar a aplicabilidade válida de cada uma. Na verdade, vive-se hoje um excesso de politização no Brasil, responsável por atacar diversas esferas que inibem uma genuína produção de conteúdo, um grave sintoma de algo muito maior, mas este assunto ficará para outra ocasião. O que é possível perceber na realidade, entretanto, é que — antes de qualquer outra coisa — ela é um meio de imposição de decisões, substituindo as faculdades de livre interação entre indivíduos, sujeitos a suas próprias escolhas e responsabilidades. Eis o porquê de ter sido um dos acontecimentos mais brilhantes dos últimos tempos a autodeclaração de Bernardo Santoro (membro do LIBER e diretor do Instituto Liberal, candidato a vereador no Rio de Janeiro em 2012) como “candidato ‘antipolítico’”.

Economicamente o socialismo não se sustenta – é claro para qualquer ser racional ver, tanto no campo teórico quanto prático. Mises o refutou em 1920; posteriormente a realidade tratou de fazê-lo também. Politicamente, porém, ele ainda faz bastante sentido e se mantem na sua busca por poder (um processo cíclico que acaba por alimentá-lo), ainda que sua mensagem seja incessantemente renovada conforme a conjuntura. Um lado compensa as falhas do outro.

Um grande exemplo análogo é o passe livre. A idéia por si só é horrorosa, insustentável sob qualquer análise rígida dos fatos. Tão absurdamente inviável que deu errado inclusive nos (poucos) lugares em que foi implementada. Mas percebam o quanto ela ganhou força após as manifestações do ano passado, tornando-se uma constante. A lógica é simples: no meio de um conjunto de demandas desorganizadas e desorientadas, acabam se destacando as militâncias, pasmem, organizadas e deliberadamente orientadas, portanto também se sobressaindo em relação às demais e gerando resultado. Não foi coincidência a presidente Dilma ter tido uma “rodada de conversas” com o Movimento Passe Livre.

Hayek atribuiu aos intelectuais uma grande porção da “culpa” pelo avanço do planejamento econômico estatal. Como testemunha de toda a barbárie totalitária do século XX, ele tinha razão — até hoje acadêmicos são bem sucedidos em suberverter a realidade, freqüentemente confundindo causas com conseqüências e estabelecendo comparações esdrúxulas a partir de meras utopias baseadas em premissas sucessivamente refutadas.

Muito do que se vê hoje na política é reflexo do que vem sendo pregado em sala de aula — desde a Sociologia até a Economia, mas também passando pela perversão lingüística que muitas vezes torna tal feito realizável. Basta observar para perceber o quanto políticos e seus partidos, talvez incoscientemente em muitos casos, vêm absorvendo ideias dessa “minoria” que prega para ouvidos atentos.

Se parece ser praticamente um axioma o fato de que é preciso haver um trade-off entre segurança e liberdade no dia a dia, em grande medida é possível afirmar que a primeira opção vem avançando assustadoramente na sociedade ocidental, mesmo que a segunda seja um valor altamente prezado por uma grande maioria de pessoas (afirmação que pode ser encontrada na bibliografia de gente tão distinta que vai de Alain de Botton a Alexander Dugin) e tenha lá seus ganhos pontuais. Ou seja, tamanho é o grau de influência sujeita ao “poder da idéias” que não raro os próprios cidadãos são pegos de surpresa pela próprias opções com as quais se deparam na hora de escolher.

Porém, como Roberto Lacerda Barricelli comentou em seu artigo, o ano passado foi crucial para o avanço de uma real pluralidade no Brasil. Entre outros, a queda do otimismo quanto ao futuro do país, respaldada por uma série de indicadores visivelmente ruins, além da consolidação cada vez maior de nomes de “oposição” (verdadeira, não aquela enquadrada numa falsa-dicotomia entre PT-PSDB), foi determinante para que uma série de novos nomes e iniciativas emergisse. É chegada a hora de novas soluções. As sementes vêm sendo plantadas; em breve será tempo de colher os frutos.

O verdadeiro front de batalha de 2014 será fora da cabina de votação. Mais gente, mais grupos, mais eventos, mais livros — isso sim fará diferença. Mais empreendedores também, não só daqueles que abrem negócios (o que por si só é importantíssimo), mas do que vendem suas ideias diariamente a seus semelhantes. Dentro do movimento começa a surgir uma espécie de especialização do trabalho, de gente que traduz vídeos, enquanto outros escrevem para algum site ou buscam uma vaga no DCE da faculdade. Que o ativismo virtual continue, que mais liberais saiam às ruas e coloquem menos Estado na pauta de demandas majoritárias! O eleitorado será futuramente o corolário dessa série de ações.