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2014 Mar 11

Novas formas de empreendedorismo: além da tradicional relação patrão-empregado

Era 2 de Novembro 1920. Nas casas de alguns moradores da cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, uma caixa emitia músicas e vozes. Era a primeira transmissão de rádio comercial da história. A transmissão, licenciada pelo governo, vinha de uma fabricante de rádios militares que se via a beira da falência com o término da Primeira Guerra. Com milhares de rádios parados nos galpões, a empresa decidiu expandir seu ramo de atuação para o uso residencial. A ideia foi um sucesso: os anos que se seguiram registraram um crescimento absurdo no número de estações, passando de 4 para mais de 500 em 2 anos somente nos Estados Unidos.

O que provavelmente passou despercebido para muitas pessoas foi a inovação econômica do rádio. A radiodifusão foi talvez o primeiro modelo de negócios totalmente gratuito para o consumidor, mas lucrativo para o dono da emissora (sem que este precisasse apelar ao Estado). Surgia também a indústria da propaganda como conhecemos, onde temos basicamente empresários pagando para que sua transmissão continue gratuita. Um modelo de negócios realmente revolucionário (não foi por acaso que tivemos esse boom 1922).

Em uma relação totalmente voluntária vemos pessoas pagando para outras usufruírem de um serviço, em troca de alguns segundos de propaganda.

Posteriormente, tivemos a TV. Ainda que no começo houvesse uma taxa de uso que era utilizada para custos de manutenção, principalmente das torres de transmissão, logo tornou-se um negócio lucrativo que possibilitou aos donos das emissoras custearem a manutenção das antenas. No mesmo estilo do rádio, as maiores despesas eram o custo era para comprar o aparelho e o gasto com eletricidade. Com o tempo, claro, o surgimento da criptografia digital permitiu a criação de redes de TV pagas por assinatura, com menos propagandas e conteúdos mais elaborado. Apesar disso, a TV gratuita custeada pela propaganda massiva não morreu.

Nos anos 1990, a indústria da publicidade migrou para a Internet. Ainda que até hoje a propaganda não custeie totalmente a conexão de internet, ela é responsável por serviços cada vez mais avançados que são disponibilizados gratuitamente, como exemplo os populares motores de busca e as redes sociais.

Nesse novo nicho, ocorreram ainda mais inovações: com o avanço da coerção estatal sobre Propriedade Intelectual para as músicas e vídeos compartilhadas gratuitamente, surgiram serviços como o Grooveshark e o YouTube que conseguem compartilhar músicas e filmes gratuitamente. E quem paga a conta dos direitos autorais? Você.

Não diretamente, mas cada vez que você clica ou assiste uma propaganda, isso se reverte em fundos para a empresa, que paga a conta dos direitos autorais para você. Além disso, também aumentou o número de gravadoras disponibilizando livremente suas músicas sem custo algum para o ouvinte, de olho no rendimento das propagandas e no rendimento que o potencial espectador de shows e comprador de produtos do artista pode gerar.

Claro, não devemos nos esquecer do MercadoLivre e do eBay, onde você pode realmente montar uma loja sem precisar recorrer ao burocrático sistema estatal para conseguir o registro de CNPJ. E ainda, o comprador tem a total garantia de que seu dinheiro será bem gasto: se o vendedor não comprovar o envio do produto, a plataforma não libera o dinheiro para ele e devolve ao comprador. Percebem quão inovador é isso? Temos aqui um sistema de punição aos vendedores ruins totalmente livre de coerção e totalmente baseado em trocas voluntárias! Ah, sem contar que se você não gostar do atendimento, pode deixar sua reclamação na página oficial do vendedor no site.

Ainda por cima, temos os vendedores que te premiam se você qualificar positivamente a venda: você também ganha uma qualificação positiva. Isso dá ao seu perfil mais confiança caso vá vender ou comprar novamente no site. Novamente, totalmente voluntário. Ninguém te obriga a nada. E tem funcionado muito bem há anos!

Mas, ainda mais revolucionário que estes exemplos, temos o Duolingo e o ReCaptcha. São, em minha opinião, o modelo de negócios mais revolucionário que a humanidade já presenciou.

O Duolingo funciona de uma forma extraordinária: você aprende uma língua online, gera lucros para o site e para um terceiro que basicamente paga a sua formação.
Para quem não conhece, o Duolingo funciona da seguinte forma: uma pessoa possui um site e quer expandir seus negócios. Para isso, precisa traduzir sua interface. Ela então envia os textos para o Duolingo e paga uma taxa. Enquanto isso, os alunos treinam o novo idioma que acabaram de aprender traduzindo o texto do site (e acumulam pontos com o aplicativo).

É tão revolucionário que consegue ter um custo zero para o aluno e ainda assim ser um site livre da poluição visual das propagandas. E consegue ser lucrativo tanto para os diretores da plataforma quanto para outras pessoas que necessitam de traduções por um baixo custo! Tudo isso sem precisar apelar para um trabalho escravo. Bem-vindo ao século XXI!

O ReCaptcha consegue ser tão inovador quanto o Duolingo. O funcionamento é simples: você quer evitar que seu site seja tomado por programas robôs e insere um captcha (uma sequência de caracteres aleatórios levemente distorcidos). Assim, só humanos conseguem acessar as páginas e arquivos, pois computadores e programas robôs se confundem com os caracteres distorcidos. Porém, junto com os caracteres de verificação do captcha existem mais alguns: estes são scans de livros e jornais. Quando você digita esses caracteres está, sem perceber, digitalizando uma palavra que um computador não conseguiu decifrar.

Em troca de perder esses segundos digitando e contribuir para um projeto que já digitalizou mais de 20 anos em acervos, você recebe o seu acesso às páginas requisitadas. No final todo mundo sai feliz: você, o Google (proprietário da plataforma ReCaptcha), as bibliotecas e o dono do site. Fodástico, não é?

E não podemos nos esquecer: a internet só existe comercialmente há 30 anos. E só se popularizou nos últimos 15… O que mais vem por aí?